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Três manchetes , um mesmo roteiro.

  • Foto do escritor: Daniela Cracel
    Daniela Cracel
  • 14 de fev.
  • 3 min de leitura

Três manchetes, um mesmo roteiro: quando poder vira posse e a família vira palco de punição

Por Daniela Cracel


Borbolete-se | Editorial de Comportamento e Saúde Mental



Há histórias que parecem não ter nada em comum. Uma envolve um financista bilionário cercado por poder e silêncio. Outra nasce de uma discussão política dentro de casa. A terceira explode a partir de uma crise conjugal e termina com filhos mortos.


Países diferentes, contextos distintos, classes sociais opostas. Ainda assim, quando se retira o ruído da manchete, resta o mesmo fio invisível: a confusão entre vínculo e propriedade.


O caso de Jeffrey Epstein escancarou uma engrenagem de abuso sustentada por dinheiro, influência e normalização. Não se tratava apenas de atos criminosos isolados, mas de um sistema que transformava adolescentes em peças de uma lógica utilitária. O poder ali não era apenas financeiro — era simbólico. Criava um ambiente onde o luxo anestesiava a percepção do abuso e onde a culpa era devolvida às vítimas.


O que mais choca não é apenas o crime, mas a naturalização: quando pessoas passam a ser tratadas como instrumentos, o abuso deixa de ser exceção e vira método.


No Texas, a morte de uma jovem britânica após uma discussão envolvendo política — e o nome de Donald Trump — trouxe outro tipo de perplexidade. A divergência ideológica foi o estopim noticioso, mas o elemento estrutural é mais antigo que qualquer eleição.


Quando a autoridade não tolera contestação, discordar deixa de ser diálogo e passa a ser afronta.


A presença de uma arma, nesse cenário emocionalmente instável, não é detalhe: é escalador.


A arma não dispara apenas projéteis; ela simboliza controle imediato. Em ambientes onde o ego se confunde com poder, o conflito pode ganhar proporções irreversíveis em segundos.


No Brasil, o caso de Goiás talvez seja o mais perturbador justamente por sua familiaridade. Um pai, uma crise conjugal, uma suposta traição mencionada em carta, dois filhos mortos e, por fim, o suicídio.


A dor conjugal, quando atravessada por orgulho ferido e sentimento de humilhação, pode se converter em narrativa de punição.


E quando filhos se tornam instrumento de retaliação, a violência atinge sua forma mais brutal: o uso da vida como mensagem. Não é “excesso de emoção”. É a tentativa distorcida de restaurar controle diante da perda.


As três histórias compartilham uma estrutura psicológica semelhante. Em todas, há fragilidade narcísica mascarada de autoridade. Há intolerância à frustração. Há a crença silenciosa de que o outro — seja adolescente, filha ou filho — é extensão da própria identidade.


Quando a autoestima depende de domínio, qualquer ameaça ao controle é vivida como ataque existencial.


E, nesse ponto, a violência surge não como impulso cego, mas como resposta aprendida.


A sociedade contribui quando romantiza. “Crime passional.” “Ele perdeu a cabeça.” “Foi emoção demais.” Essas expressões suavizam o que é estrutural. Amor não é posse. Ciúme não é prova de vínculo. Discordância não é desrespeito. E honra não é justificativa para destruição.


Há ainda um elemento transversal: o acesso a meios letais em contextos emocionais instáveis aumenta drasticamente a probabilidade de tragédia.


Estudos internacionais já apontaram que a presença de arma em casa eleva o risco de homicídio doméstico. Emoção intensa somada à disponibilidade imediata de violência cria um cenário de letalidade que não pode ser ignorado.


Epstein mostrou o abuso protegido por dinheiro. O caso do Texas revelou a arma como extensão do ego. O caso de Goiás expôs a punição como resposta à dor conjugal.


Três enredos que parecem desconectados, mas que nascem da mesma raiz cultural: a ideia de que o outro pode ser apropriado, controlado, utilizado.


Enquanto continuarmos confundindo autoridade com superioridade e amor com domínio, as manchetes vão se repetir. Elas não são surpresas imprevisíveis. São sintomas de uma estrutura que ainda ensina que perder controle é perder valor.


A pergunta que permanece não é jurídica. É cultural.


Se vínculo vira posse, ainda podemos chamar isso de amor?


 
 
 

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