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Faça o corpo que sente .

  • Foto do escritor: Daniela Cracel
    Daniela Cracel
  • há 13 minutos
  • 2 min de leitura

FAÇA O CORPO QUE SENTE

Por Daniela Cracel


Nunca se falou tanto em bem-estar. Aplicativos de sono, relógios que contam passos, protocolos de produtividade emocional, dietas funcionais e rotinas de autocuidado ocupam hoje o centro do discurso sobre saúde mental. Vivemos a era da performance saudável. E, paradoxalmente, uma das gerações mais cansadas da história.

Nos consultórios, cresce um perfil silencioso de adoecimento: pessoas que não se sentem exatamente doentes, mas vivem em permanente estado de exaustão interna. Dormem, mas não descansam. Funcionam, mas não se sentem. Realizam tarefas, mas não se habitam. O corpo segue em movimento, enquanto o sistema nervoso permanece em alerta contínuo — como se o perigo nunca tivesse terminado.

A neurociência chama esse estado de hiperativação. Ele está por trás de sintomas cada vez mais comuns: dores sem causa orgânica clara, fadiga persistente, ansiedade constante, irritabilidade, lapsos de memória, queda de energia, dificuldade de presença e uma sensação recorrente de vazio. Não se trata de fragilidade emocional, mas de um organismo que aprendeu a sobreviver, mas desaprendeu a repousar.

A cultura da performance ensinou o corpo a aguentar. Mas não ensinou o corpo a sentir.

Fazer o corpo que sente é um gesto de reeducação interna. Significa sair do modo tarefa e entrar no modo presença. É devolver ao sistema nervoso a experiência de segurança. É desacelerar por dentro, soltar o maxilar, permitir pausas sem culpa, respirar com profundidade, reconhecer emoções antes que elas se convertam em sintomas físicos. É compreender que sentir não é perda de tempo — é uma função biológica essencial à saúde.

O corpo não adoece primeiro. Ele avisa. Adoece quando não é escutado, quando emoções são contidas, quando o descanso é vivido como fraqueza e quando o silêncio interno se torna crônico. O organismo então assume a linguagem que lhe resta: o sintoma.

Cada vez mais, a ciência confirma que saúde não se sustenta apenas em medicamentos, mas em experiências contínuas de previsibilidade emocional, vínculo, descanso real e sensação de segurança. O corpo precisa saber que não está em guerra. Precisa sentir que pode pousar.

Talvez você não esteja fraca. Talvez seu corpo esteja apenas cansado de viver em modo sobrevivência. E o que ele mais pede agora não é força, mas cuidado. Não é desempenho, mas presença.

Fazer o corpo que sente é, hoje, um dos atos mais profundos de autocuidado.

É voltar para casa — dentro de si.

 
 
 

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