Medicalizacão da tristeza: quando sentir vira diagnóstico.
- Daniela Cracel
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Medicalização da tristeza: quando sentir vira diagnóstico
Entre o cuidado necessário e o silenciamento da dor emocional
— Edição Bem-Estar & Psicologia
Por Daniela Cracel
Sentir tristeza nunca foi um problema. Ela acompanha perdas, mudanças, frustrações, lutos visíveis e invisíveis. O que mudou, nas últimas décadas, foi a forma como a sociedade passou a lidar com esse sentimento. Hoje, a tristeza incomoda, atrasa, desorganiza — e, por isso, tem sido cada vez mais rapidamente transformada em diagnóstico.
Vivemos a era da medicalização da tristeza: um processo em que experiências emocionais humanas são tratadas como falhas a serem corrigidas, muitas vezes sem escuta, sem contexto e sem tempo de elaboração.
O desconforto com o sentir
A cultura da performance não tolera pausas emocionais. Espera-se que as pessoas sigam produtivas, disponíveis e funcionais, mesmo quando algo dentro delas pede silêncio. Nesse cenário, a tristeza se torna um incômodo social — não apenas individual.
Diante disso, cresce a busca por soluções imediatas.
O sofrimento é interpretado como disfunção e, rapidamente, encaminhado para contenção química, sem que se investigue o que o provocou.
Não se trata de negar a importância dos medicamentos. Eles são fundamentais em muitos quadros clínicos e salvam vidas. O problema está no uso automático, descontextualizado e solitário, quando o remédio substitui a escuta — e não a acompanha.
Tristeza não é depressão.
No campo da psicologia, a distinção é clara, mas frequentemente ignorada no cotidiano.
A tristeza é uma emoção legítima, transitória e informativa.
A depressão é um transtorno que compromete o funcionamento psíquico, físico e relacional do sujeito.
Quando essa diferença é apagada, corre-se o risco de tratar emoções como patologias e de impedir que as pessoas compreendam o que estão vivendo. Ao invés de perguntar “o que essa dor está tentando comunicar?”, busca-se apenas silenciá-la.
O que acontece quando a dor não é escutada.
Em muitos casos, a tristeza abafada não desaparece — ela se desloca. Surge no corpo, no cansaço extremo, nas dores sem causa aparente, na insônia, na irritabilidade constante ou na sensação de vazio.
Entre mulheres, esse movimento é ainda mais frequente. Educadas para sustentar, cuidar e seguir adiante, muitas aprendem a engolir a tristeza até que o corpo encontre uma forma de expressá-la.
Escuta também é cuidado em saúde mental
Tratar saúde mental não é apenas reduzir sintomas. É compreender histórias, limites ultrapassados, perdas não elaboradas e desejos interrompidos.
Psicoterapia, acompanhamento contínuo e validação emocional não competem com a medicina. Eles se complementam. O risco surge quando a escuta é retirada do processo e o sofrimento passa a ser entendido apenas como desequilíbrio químico.
Nem toda dor pede remédio. Algumas pedem palavra. Outras, tempo. Outras, mudança de rota.
Entre o excesso e a negligência
O desafio atual não é negar o sofrimento psíquico nem romantizá-lo. É aprender a discernir. Reconhecer quando o medicamento é necessário — e quando ele está sendo usado para adaptar o sujeito a uma vida que já não faz sentido.
Talvez a pergunta mais importante não seja “qual remédio tomar?”, mas:
“o que, na forma como estamos vivendo, está nos entristecendo tanto?”
Sentir não é adoecer.
Silenciar o sentir, sim, pode adoecer.





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