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Por que uma mulher cansada não consegue simplesmente "se organizar melhor"?

  • Foto do escritor: Daniela Cracel
    Daniela Cracel
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

POR QUE UMA MULHER CANSADA NÃO CONSEGUE SIMPLESMENTE “SE ORGANIZAR MELHOR”?


Por Daniela Cracel


Quando a mente precisa administrar trabalho, casa, filhos, relacionamentos e dezenas de pequenas decisões ao mesmo tempo, talvez o problema não seja falta de organização — mas excesso de carga.


Por Daniela Cracel

Psicóloga e Neuropsicóloga | Criadora do Borbolete-se


Ela acorda e, antes mesmo de levantar da cama, já começou a trabalhar.


Lembra da conta que precisa pagar. Da mensagem que não respondeu. Da consulta que precisa marcar. Do que está faltando em casa. Da tarefa do filho. Da reunião. Do prazo. Da roupa que precisa ser lavada. Do aniversário que não pode esquecer.


Enquanto realiza uma tarefa, outras cinco permanecem abertas mentalmente.


E, no fim do dia, diante da sensação de que ainda faltou alguma coisa, surge uma conclusão aparentemente óbvia:


“Eu preciso me organizar melhor.”


Mas será mesmo?


Talvez estejamos chamando de desorganização aquilo que, muitas vezes, é sobrecarga cognitiva.


O trabalho que ninguém vê


Existe o trabalho concreto: cozinhar, levar, buscar, comprar, pagar, responder, organizar, trabalhar.


E existe outro trabalho, muito menos visível: lembrar que tudo isso precisa ser feito.


É acompanhar prazos, antecipar problemas, perceber necessidades, tomar pequenas decisões, planejar etapas e manter informações disponíveis mentalmente para utilizá-las depois.


É possível dividir uma tarefa e ainda não dividir a responsabilidade por ela.


Alguém pode, por exemplo, fazer uma compra no supermercado. Mas outra pessoa continua sendo aquela que percebe o que acabou, pensa no que será necessário durante a semana, verifica o que a criança precisa, faz a lista e lembra que é preciso comprar.


É essa administração invisível que ajuda a explicar por que algumas mulheres dizem: “Eu não parei o dia inteiro, mas parece que não fiz nada.”


A American Psychological Association observa que muitas mulheres conciliam responsabilidades profissionais com uma parcela ainda expressiva do trabalho doméstico e familiar, combinação que pode aumentar estresse e favorecer esgotamento.


O cérebro também tem limite


Do ponto de vista da neuropsicologia, não temos capacidade ilimitada para manter informações, organizar prioridades, controlar impulsos, alternar entre tarefas e tomar decisões.


Parte desse trabalho envolve as chamadas funções executivas — habilidades fundamentais para planejar, organizar comportamentos, sustentar objetivos e adaptar nossas ações.


Também utilizamos constantemente a memória de trabalho, que nos permite manter determinadas informações temporariamente disponíveis enquanto fazemos alguma coisa.


Imagine-a como uma pequena mesa mental.


Sobre ela você coloca: “preciso responder aquele e-mail”, “não posso esquecer o remédio”, “às 15h tenho reunião”, “preciso comprar material”, “tenho que resolver aquela pendência”.


Só que a mesa não é infinita.


Quando informações e demandas demais disputam esse espaço, o desempenho pode sofrer.


Estudos sobre estresse mostram que ele pode afetar justamente processos como memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, embora seus efeitos dependam da intensidade, duração, contexto e características individuais.


Por isso, uma pessoa sobrecarregada pode começar a esquecer pequenas coisas, perder objetos, reler várias vezes a mesma mensagem, ter dificuldade para escolher por onde começar, abandonar uma tarefa no meio para resolver outra ou sentir que não consegue “desligar” nem quando finalmente se senta.


Isso não significa automaticamente que exista um transtorno.


Significa que um cérebro submetido continuamente a muitas demandas também se cansa.


Quando o cansaço vira culpa


O problema se torna ainda maior quando a sobrecarga é interpretada como defeito pessoal.


“Estou desorganizada.”


“Não estou dando conta.”


“Preciso ser mais produtiva.”


“Todo mundo consegue, menos eu.”


E então acontece algo perverso: além de carregar tarefas demais, essa mulher passa a carregar também a culpa por não conseguir executá-las perfeitamente.


Ela compra uma agenda nova. Baixa outro aplicativo. Faz listas. Assiste a vídeos sobre produtividade. Acorda mais cedo.


Tudo isso pode ajudar na organização.


Mas nenhuma ferramenta de produtividade resolve, sozinha, uma equação em que há mais demandas do que recursos disponíveis.


Às vezes, a pergunta não deveria ser:


“Como posso fazer tudo isso melhor?”


Mas:


“Por que tudo isso precisa ser feito por mim?”


Descansar não é apenas parar


Existe ainda uma diferença importante entre não estar executando uma tarefa e estar verdadeiramente descansando.


Uma pessoa pode estar sentada no sofá enquanto mentalmente organiza o dia seguinte.


Pode estar tomando banho enquanto pensa no trabalho.


Pode sair para jantar e continuar lembrando de tudo o que precisa resolver quando chegar em casa.


O corpo interrompeu a tarefa. A mente, não.


A fadiga cognitiva é justamente um estado de cansaço mental associado à redução da eficiência cognitiva após demandas sustentadas, podendo aparecer como queda de atenção, processamento mais lento, dificuldade de decisão e pior desempenho executivo.


Por isso, descanso também envolve a possibilidade de deixar de administrar alguma coisa.


Talvez você não precise aprender a dar conta de tudo


Organização é importante. Planejamento ajuda. Rotina pode proteger nossa saúde mental.


Mas precisamos tomar cuidado para não transformar ferramentas úteis em mais uma cobrança dirigida a quem já está sobrecarregada.


Há momentos em que a solução será organizar.


Em outros, será delegar.


Em outros, dividir responsabilidades.


Em alguns, diminuir expectativas.


E haverá situações em que será necessário simplesmente admitir:


isso é coisa demais para uma pessoa só.


Porque saúde mental não deveria significar tornar uma mulher cada vez mais eficiente em suportar uma vida insustentável.


Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer diante da exaustão seja:


“O que realmente precisa ser feito — e o que eu aprendi que precisava ser feito por mim?”


Borboletear também pode ser isso.


Não se transformar para conseguir carregar cada vez mais peso.


Mas reconhecer quais pesos já não precisam continuar em suas asas.


Daniela Cracel

Psicóloga e Neuropsicóloga

Criadora do Método Borbolete-se

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