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Cuidar do organismo inteiro : por que um relacionamento adoecido não pode definir toda uma vida .

  • Foto do escritor: Daniela Cracel
    Daniela Cracel
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Cuidar do organismo inteiro: por que um relacionamento adoecido não pode definir toda uma vida


Quando a dor ocupa o centro da existência, a saúde emocional desaparece do campo de visão

Por Daniela Cracel – Psicóloga




Em atendimentos clínicos ao longo de anos, uma constatação se repete com força: muitas mulheres adoecem emocionalmente não apenas pelo relacionamento que vivem, mas porque passam a acreditar que a vida delas se resume àquela relação.


Quando um vínculo está marcado por sofrimento, controle, dinâmica narcisista ou desgaste contínuo, ele deixa de ser apenas um aspecto da existência e passa a ocupar o lugar de identidade inteira.

Mas um relacionamento, por mais importante que seja, não é a totalidade do organismo psíquico de uma pessoa.


O erro comum: transformar a ferida em identidade


Do ponto de vista psicológico, é frequente observar mulheres que descrevem suas vidas apenas a partir da dor conjugal:

  • “Minha vida é esse casamento”

  • “Eu sou esse problema”

  • “Nada faz sentido fora disso”

Essa fusão entre sofrimento e identidade cria um estado de aprisionamento emocional profundo. A dor deixa de ser uma experiência e passa a ser quem a pessoa acredita que é.


O organismo inteiro: uma mudança de olhar que promove saúde


Uma metáfora clínica tem se mostrado especialmente potente no trabalho terapêutico:


um relacionamento adoecido é como um órgão machucado em um organismo inteiro.

Esse órgão importa, dói, exige cuidado.


Mas ele não é o corpo todo.

Quando a terapia ajuda a mulher a ampliar o campo de visão, algo fundamental acontece: ela começa a reconhecer tudo o que ainda está saudável, funcional e vivo dentro de si.


Viver o que está saudável não é negar o problema


Há um equívoco comum: acreditar que focar no que está bem é uma forma de fuga. Na prática clínica, ocorre o contrário.

Quando a mulher passa a investir energia em áreas preservadas da vida — como:

  • o cuidado com os filhos

  • o trabalho

  • as amizades

  • os interesses pessoais

  • o prazer, o riso, o descanso

Ela não está negando a dor.


Ela está regulando o sistema emocional e recuperando autonomia psíquica.


O efeito silencioso: o centro muda


Algo importante acontece quando o relacionamento deixa de ser o centro absoluto da vida:


ele perde poder.

Em especial em relações com funcionamento narcisista, onde o outro precisa ocupar o lugar central, a reorganização interna da mulher provoca um afastamento natural. Não por confronto, mas por desinvestimento emocional progressivo.

Ela vive.


A dor deixa de comandar tudo.


A vida como campo maior


Inspirada também por reflexões espirituais — como a metáfora da maçã apresentada pelo , que ensina que é preciso afastar o objeto para enxergá-lo melhor —, a clínica mostra que distância psíquica é saúde.

Quando a mulher se afasta emocionalmente da dor, ela consegue ver:

  • o que aquele vínculo é

  • o que ele não é

  • e, principalmente, quem ela continua sendo além dele


Fé, sentido e responsabilidade emocional

Para muitas mulheres, a fé também surge como sustentação — não no sentido de justificar o sofrimento, mas de atribuir significado ao processo:


“Talvez essa experiência esteja me chamando a olhar para a minha vida inteira.”

Essa perspectiva não romantiza a dor.


Ela devolve sentido sem aprisionar.

Um princípio terapêutico essencial

A prática clínica ensina algo que precisa ser dito com clareza:


A vida de uma mulher não cabe dentro de um relacionamento.


É o relacionamento que precisa caber dentro da vida dela.

Quando isso acontece, a mulher não se fragmenta.


Ela se torna mais inteira.

E cuidar do organismo inteiro é, muitas vezes, o primeiro passo real em direção à paz.


 
 
 

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