Cuidar do organismo inteiro : por que um relacionamento adoecido não pode definir toda uma vida .
- Daniela Cracel
- há 2 dias
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Cuidar do organismo inteiro: por que um relacionamento adoecido não pode definir toda uma vida
Quando a dor ocupa o centro da existência, a saúde emocional desaparece do campo de visão
Por Daniela Cracel – Psicóloga

Em atendimentos clínicos ao longo de anos, uma constatação se repete com força: muitas mulheres adoecem emocionalmente não apenas pelo relacionamento que vivem, mas porque passam a acreditar que a vida delas se resume àquela relação.
Quando um vínculo está marcado por sofrimento, controle, dinâmica narcisista ou desgaste contínuo, ele deixa de ser apenas um aspecto da existência e passa a ocupar o lugar de identidade inteira.
Mas um relacionamento, por mais importante que seja, não é a totalidade do organismo psíquico de uma pessoa.
O erro comum: transformar a ferida em identidade
Do ponto de vista psicológico, é frequente observar mulheres que descrevem suas vidas apenas a partir da dor conjugal:
“Minha vida é esse casamento”
“Eu sou esse problema”
“Nada faz sentido fora disso”
Essa fusão entre sofrimento e identidade cria um estado de aprisionamento emocional profundo. A dor deixa de ser uma experiência e passa a ser quem a pessoa acredita que é.
O organismo inteiro: uma mudança de olhar que promove saúde
Uma metáfora clínica tem se mostrado especialmente potente no trabalho terapêutico:
um relacionamento adoecido é como um órgão machucado em um organismo inteiro.
Esse órgão importa, dói, exige cuidado.
Mas ele não é o corpo todo.
Quando a terapia ajuda a mulher a ampliar o campo de visão, algo fundamental acontece: ela começa a reconhecer tudo o que ainda está saudável, funcional e vivo dentro de si.
Viver o que está saudável não é negar o problema
Há um equívoco comum: acreditar que focar no que está bem é uma forma de fuga. Na prática clínica, ocorre o contrário.
Quando a mulher passa a investir energia em áreas preservadas da vida — como:
o cuidado com os filhos
o trabalho
as amizades
os interesses pessoais
o prazer, o riso, o descanso
Ela não está negando a dor.
Ela está regulando o sistema emocional e recuperando autonomia psíquica.
O efeito silencioso: o centro muda
Algo importante acontece quando o relacionamento deixa de ser o centro absoluto da vida:
ele perde poder.
Em especial em relações com funcionamento narcisista, onde o outro precisa ocupar o lugar central, a reorganização interna da mulher provoca um afastamento natural. Não por confronto, mas por desinvestimento emocional progressivo.
Ela vive.
A dor deixa de comandar tudo.
A vida como campo maior
Inspirada também por reflexões espirituais — como a metáfora da maçã apresentada pelo , que ensina que é preciso afastar o objeto para enxergá-lo melhor —, a clínica mostra que distância psíquica é saúde.
Quando a mulher se afasta emocionalmente da dor, ela consegue ver:
o que aquele vínculo é
o que ele não é
e, principalmente, quem ela continua sendo além dele
Fé, sentido e responsabilidade emocional
Para muitas mulheres, a fé também surge como sustentação — não no sentido de justificar o sofrimento, mas de atribuir significado ao processo:
“Talvez essa experiência esteja me chamando a olhar para a minha vida inteira.”
Essa perspectiva não romantiza a dor.
Ela devolve sentido sem aprisionar.
Um princípio terapêutico essencial
A prática clínica ensina algo que precisa ser dito com clareza:
A vida de uma mulher não cabe dentro de um relacionamento.
É o relacionamento que precisa caber dentro da vida dela.
Quando isso acontece, a mulher não se fragmenta.
Ela se torna mais inteira.
E cuidar do organismo inteiro é, muitas vezes, o primeiro passo real em direção à paz.





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