Quando o relacionamento constrange mais do que acolhe .
- Daniela Cracel
- 22 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Quando o relacionamento constrange mais do que acolhe.

Não é exatamente vergonha o que muitas mulheres sentem ao apresentar seus relacionamentos.
É um desconforto difícil de nomear — mas muito fácil de sentir.
No consultório, ele aparece assim:
“Eu travo quando perguntam dele.”
“Evito levá-lo a certos lugares.”
“Não é que eu não goste… é que algo fica estranho.”
Esse “estranho” quase nunca está ligado à aparência, ao status ou à falta de amor.
Está ligado ao comportamento.
Muitas mulheres se relacionam hoje com homens que falam bem.
Falam de valores, de consciência, de política, de espiritualidade, de ética, de igualdade.
Homens que se posicionam, que têm opinião, que sabem argumentar.
Mas quando entram na cena do vínculo, algo se desenha diferente.
Uma cliente contou:
“Ele fala muito sobre o que acredita. Sobre as lutas dele. Sobre as ideias dele.
Quando estamos com outras pessoas, ele ocupa o espaço inteiro.
E eu fico ali… quase como plateia.”
Ela não se sentia diminuída de forma explícita.
Mas também não se sentia incluída.
Em outro momento, disse:
“Não é que ele não me elogie.
Ele só não fala de mim como alguém que ele admira profundamente.
Parece sempre genérico.”
Esse tipo de relação não machuca de imediato.
Ela desgasta.
A mulher começa a perceber pequenas incoerências:
– um discurso progressista, mas pouca escuta
– defesa de igualdade, mas centralidade absoluta
– falas bonitas sobre parceria, mas dificuldade de reconhecer o outro em público
– lutas externas muito bem sustentadas, e contradições íntimas não elaboradas
Nada disso vira briga.
Vira silêncio.
Ela começa a evitar expor o relacionamento não porque o homem seja “ruim”,
mas porque sabe que, ao apresentá-lo, algo ficará desalinhado.
Não é vergonha de amar.
É lucidez sobre o que está sendo vivido.
Apresentar um relacionamento é também dizer ao mundo:
“É assim que eu me vinculo.”
“É assim que sou vista quando estou com alguém.”
E algumas mulheres sentem que ainda não podem dizer isso com tranquilidade.
Sou a favor de homens que reconhecem, elogiam e tornam visível o valor da mulher ao seu lado —
não como performance,
mas como coerência afetiva.
Quando isso não acontece, a mulher começa a se perguntar se está pedindo demais.
Quando, na verdade, talvez esteja apenas pedindo alinhamento entre discurso e prática.
O Borbolete-se atravessa esse ponto delicado:
quando a mulher para de se culpar por sentir desconforto e passa a escutar o que esse desconforto está dizendo.
Porque vínculos coerentes não exigem esforço para serem apresentados.
Eles simplesmente cabem.
E quando não cabem, não é a mulher que precisa se encolher para explicar.
Daniela Cracel
Psicóloga | Criadora do Método Borbolete-se





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